Despedida
Lidi entra na penitenciária atordoado com o remédio em mãos,sua mãe Libi estava na torcida para que ele conseguisse entregar a tempo. Os guardas utilizam o protocolo para a entrada de qualquer tipo de medicação na cadeia.
-Meu jovem, sem a receita é impossível que eu libere a entrada desse remédio!
-Seu monstro. Papai precisa desse remédio. "Coração vai parar"
-Sinto muito. As regras são bem claras acerca disso.
O jovem voltou para a ortaria de recepção de visitantes, onde a mão o esperava.
- Conseguiu?
- Não! Ligar para o advogado.
Nesse momento, inicia-se a trajetória da família em busca da liberação da entrada do HCTZ (hidroclorotiazida), medicação para a estabilização da pressão arterial.
Há três semanas , a família de imigrantes chineses se dividia entre a primeira delegacia da Polícia Civil da Asa Sul e os afazeres do trabalho.A família se desprendia no comércio de produtos falsificados , trazidos do seu país de origem. Em uma operação da Polícia Federal para o combate à pirataria, foram apreendidas diversas mercadorias que seriam comercializadas em feiras estratégicas do Distrito Federal. Além disso , os responsáveis pelas mercadorias que se negassem a entregar a mercadoria para os agentes foram presos preventivamente pelo crime de fomento à pirataria e também por sonegação impostos. Por essa razão, o patriarca da família, Chang estava preso e privado de sua medicação para estabilização da pressão.
Enquanto, a família corria atrás da documentação para a entrada do remédio no interior da delegacia para o controle da doença crônica de Chang, o senhor chinês sofria com anginas no peito e a situação de hipertensão se acentuava , por causa do estresse de estar preso e com o receio de as suas mercadorias, nas quais haviam destinado toda a suas economias.
Após 12 horas buscando as receitas de medicação contínua e levando a um médico para que as mesmas fossem renovadas, Lidi conseguiu que a hidroclototiazida fosse autorizada para ser entregue a Chang.Mãe e filho retornaram para casa , afinal no outro dia, deveriam abrir sua loja. O comércio era a sua única forma de sustento aqui no Brasil.
O apartamento da família de Chang era pequeno e aconchegante , repleto de estátuas que remetiam a sua religião budista, um dos seus poucos momentos de lembrança da cultura chinesa ,de maneira íntegra era conseguida, quando estavam em casa e podiam falar no seu dialeto do Mandarim , praticar seus hábitos culinários. No dia seguinte, Lidi é acordado pelos gritos da sua mãe Libi que estava ao telefone.Rapidamente,levanta da cama, tropeça e esbarra em uma mesa lateral que tinha em seu quarto e derruba uma estátua de Pan KU que havia sido um presente de seu pai, assim que completaram um ano de mudança para o Brasil. O jovem olhou para o deus chinês espatifado no chão e se entristeceu, no entando , os gritos de Libi eram mais urgentes.Chegando na sala de estar , encontra sua mãe caída no chão aos prantos e o telefone ao lado.O que mais temiam aconteceu Chang não resistiu a instabilidade da sua pressão arterial e teve um infarto fulminante naquela madrugada.
O jovem teve que ser forte e lidar com os afazeres do óbito de seu pai.Chang já havia se naturalizado brasileiro, pois a família já tinha residência fixa no Brasil há 6 anos, o suficiente para garantiar a naturalização sem nenhum problema.Lidi conseguiu retirar o corpo de seu pai do Instituto Médico Legal um dia depois da perícia que confirmou morte por infarto agudo do miocárdio. A tradição previa cremação em caso de morte. No dia seguinte, o procedimento de cremação havia sido feito e as cinzas de Chang estavam em uma bela urna com inscrições chinesas.
O desejo do falecido pai de família era que suas cinzas fossem despejadas no rio Yangtze,na área da hidrelétrica das 3 gargantas.Chang nem sempre foi vendedor de mercadorias piratas no Brasil.Em 1995,havia começado a carreira como engenheiro na China.Uma carreira aparentemente promissora ,mas havia sido interrompida , quando o chefe de Chang o envolveu num escândalo de corrupção.Mais tarde foi absolvido,no entanto , a carreira já tinha sido destruída.
A Ida da família ao Brasil não foi de imediato.Foram morar por um tempo num arrozal da família.A ideia era dar um local mais tranquilo para Lidi crescer.A fazenda que cultivava arroz era da família de Libi,ficaram ali até que o filho completasse seus 18 anos.
Chang se sentia útil coordenando as plantações nas terras do sogro,recebia bons rendimentos pelos lucros da colheita.No entanto,sentia a vontade de ter algo seu e não estar à mercê de disputa de herança com o irmão mais velho de sua esposa.
Quando Lidi completou 19 anos, a família se despediu da fazenda e arrozal e encarou a empreitada de construir a vida zero, em outro país.Juntaram boas economias e abriram um negócio com produtos chineses falsificados ( bolsas e óculos)
A esposa Libi sabia do desejo do falecido Marido em ter as cinzas espalhadas na represa chinesa ,onde foi injustiçado anos atrás.O filho Lidi que agora era o chefe.de sua família optou aguardar um tempo para a viagem,talvez no próximo ano.
A viúva concordou com a ideia ,afinal,não tinham dinheiro para comprar passagens suficientes para os dois.
No dia seguinte, a família foi para a feira, onde trabalhavam e seguiram a rotina.Explicaram aos vizinhos de loja curiosos sobre o ocorrido e também para alguns outros chineses próximos que também trabalhavam ali.
Fim de expediente,os dois voltaram para casa.Libi dormiu cedo,pois ainda estava abalada com a morte.Talvez conseguisse descansar se recolhendo mais cedo,pensou ela.
No meio da noite, Libi sentiu que não estava sozinha na cama.
- Meu filho, você está com insônia e veio dormir comigo?
Libi olha para o lado e não enxerga ninguém,mas o travesseiro ao seu lado estava marcado,talvez o filho já tivesse ido deitar em sua cama.Fecha os olhos novamente,adormece por 10 minutos e é acordada com um barulho irritante,mas aquele não era de seu filho.Era o ronco que Libi tanto conhecia ao longo dos anos.Era o ronco de Chang.Aquele ronco horrível,que mais parecia de um porco e que a irritava tanto,no decorrer de todos aqueles anos de matrimônio.
Passados 3 dias das noites com os episódios assombrosos que Libi tinha na cama, no espelho de suíte enxergou o reflexo de Chang ,no olhar do falecido esposo aflição.
Ligou para para a amiga brasileira e contou que os acontecimentos tinham se agravado.
- Como assim, Libi ? Que história é essa?
- Amiga,ele me pertuba toda noite ,não aguento mais ,Paula.
- Diz que ele tem que ir para Deus,Libi.
- Não !! É melhor levar ele para china!!
Semanas depois, o filho não aguentava mais os tormentos da mãe e comprou apenas a passagem dela para a China.
As cinzas do Chang foram depositadas na represa do Rio das três gargantas.
O medo de que o terror do assombro volte a qualquer momento persistiu com Libi.
Inspiração:
O texto é baseado em fatos reais ocorridos com uma família de imigrantes chineses em Brasília.
Não se sabe ao certo, se a pertubação acabou após as cinzas serem levadas para a China.
Ótimo conto, desejo mais textos com essa mesma qualidade!
ResponderExcluirAmeeeei!
ResponderExcluirAmei o conto!
ResponderExcluirExcelente 👏
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