Fim da pescaria

    Martinha era uma mulher de rotinas. Por quarenta anos, pegou o mesmo caminho até o rio antes das quatro da tarde em Cavalcante Goiás Centro Oeste do Brasil. Conhecia cada solavanco detalhe do terreno acidentado, cada curvasinha do caminho.A pesca era parte importante desua vida: aquela foi a atividade que nutriu seus 11 filhos com proteína conhecera, lá aprendeu a entender o nicho dos rios. Viu o rio encher e minguar. 
    O progresso, porém, decidiu que o rio precisava de uma represa. A energia para as cidades longínquas exigia o sacrifício daquele vale. Os engenheiros chegaram com mapas e máquinas, falando em desenvolvimento. Para Martinha, desenvolvimentos eram aqueles que ela via nos filhos: um aprendendo a ler, outro cuidando da roça, uma filha mudando para Brasília,constituindo família e se tornando empresária. Aquele alagamento anunciado era apenas um fim.O fim da aspecto imaterial da cultura de uma quilombola de quem ela fazia parte. 
    No último dia antes das águas subirem, Martinha vestiu sua saia colorida, a mesma que durava mais que o tempo, e pegou sua vara de taquara, não para pescar, mas para se apoiar. O caminho estava cheio de gente da comunidade, alguns rezando, outros em silêncio, uns poucos protestando com cartazes que as máquinas ignorariam. Era um velório para um pedaço de mundo. Enquanto os outros cantavam ladainhas ou discutiam com os homens de capacete, Martinha ficou em silêncio, à beira do barranco onde tantas vezes se equilibrara. Não via o drama dos homens; via o fantasma de suas mãos juvenis puxando o primeiro piau, a sombra da mangueira onde amamentava os filhos enquanto a linha esperava, o eco das risadas das crianças se banhando após a empreitada de buscar mistura. O rio, naquele dia, parecia correr mais devagar, como se resistisse a morrer. O líder do movimento, um jovem neto do prefeito , se aproximou. "Dona Martinha, é hoje. Vão fechar as comportas. A água vai subir tudo isso aqui." Martinha olhou para as pedras no leito do rio, que guardavam a memória de suas solas descalças. "Já sei", respondeu, com uma voz que era um sussurro rouco da terra. "Só queria ver mais uma vez." O jovem entendeu. Voltou para o grupo, deixando a velha senhora ali, plantada à margem do que em breve seria fundo. 
    Martinha não era apenas uma mulher diante de um rio. Era a própria raiz daquele lugar, testemunha de um tempo em que o rio não servia à cidade, mas à vida. E a vida, ela sabia, encontraria outro caminho, mas a memória daquele trecho do rio ficaria submersa sob um lago quieto e artificial, levando consigo histórias que só ela e as pedras conheciam. E quando a primeira língua de água lamacenta lambeu seus pés, Martinha não se moveu. Sentiu o frio do progresso, um frio diferente do abraço do rio. Era o fim da linha, agora a ponte se tornaria monumento.Seus passeios vespertinos se reduziriam à contemplação.

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