Sonhos molhados

                        Discutir política é o prato do dia, mas fuja de confrontos desnecessários -  06/06/2017 - UOL Economia

 

Bifurcações de ideias anteriormente eram causadoras de diversidade no pensamento, no entanto a hostilidade em busca daqueles que se atém a elas podem ser catastróficas no imaginário humano e nas relações humanas.( Autoral)


     

    Era o início de uma  noite de sábado, em uma padaria da quadra 304 da Asa Norte,  os funcionários se preparavam para  atender a remessa de clientes da noite, a maioria homens e mulheres de meia idade que compravam pães , bolos ,salgados para compra rápida e consumo em suas casas ou até consumo no próprio local. O local era consideralmente cheio,nesse horário, nessa tradicional padaria.Uma grande especialidade da confeitaria, além dos produtos tradicionais, era servir macarrão , no qual o cliente escolhia os temperos e os ingredientes.

    Sérgio, um homem de 59 anos , grisalho, sargento do exército brasileiro,militar próximo de se aposentar, alto e com a fisionomia desgastada, decorrente do uso constante de cigarros,a feição do seu rosto era sisuda, aquele sujeito que aparentava estar emburrecido sempre . Era um freguês frequente naquele estabelecimento.Depois de sua aposentadoria, dedicava o tempo livre para fazer debates em redes sociais acerca de viezes políticos.Já faz um tempo que o manequeismo acerca de preferências políticas se instaurou.O velho ditado política não se discute foi mudado agora é política só se disputa. Nessa mentalidade o quase aposentado , em pouco tempo, assumiu um discurso esnobe, alheio a aceitar algo que se opusesse àquelas suas convicções.

- Quatro pães, 6 pães de queijo e 2 sonhos, por favor.Os sonhos mais molhadinhos.

O pedido de Sérgio era o mesmo todo o dia. Havia uma fila preferencial no caixa. Um senhor que estava estava nessa fila , dirigiu-se a Sérgio , cochichando.

-Por que o senhor não vem para a fila preferencial?

O outro senhor de 62 anos,usava sempre um boné azul marinho, era de altura mediana, branco, embora estivesse bem coradinho quase vermelho por causa da cerveja que bebeu o dia inteiro, não se podia deixar de reparar nele uma saliente barriga.Naquela noite , havia comido macarrão na padaria, após pagar por seu consumo e pelo saco com quitutes que enchiam uma sacola,iria encontrar amigos naquela mesma quadra.

- Não, obrigado.Eu não sou velho.

-Desculpe, achei que você não tinha visto a fila. ... Deixa de ser besta, homem.Olha o tamanho da fila normal. Disse em meio a risadas sarcásticas.

- Está me achando com cara de velho vagabundo que não faz mais nada além de jogar dominó nas quadras depois da aposentadoria e que ainda fica lotando ad filas dos estabelecimentos.Ainda mais das lotéricas com seus jogos de apostas, enquanto os outros querem pagar contas .Nunca vi! Um povinho super desocupado.

Essas palavras saíram da boca do militar na intensidade de quase grito,o suficiente para atrair olhares de todo o local.

- O senhor está me chamando de vagabundo? Por acaso eu te ofendi? Já bem irritadado e visivelmente mais vermelho do que o comum.

- Se eu o ofendi ,essa foi a intenção. É por causa de pessoas como você que a previdência está quebrada. Não produz nada e ainda querem privilégios para inchar mais a barriga. A reforma da previdência tem que ser aprovada logo.

- Você só pode estar de brincadeira? Eu trabalhei durante quase toda a minha vida e agora me diz que não posso desfrutar da minha aposentadoria? Seu estúpido!!

Rapidamente, Sérgio sacou uma arma e apontou em direção do senhor.

- Quem chamou de estúpido, velho inútil?

Os funcionários do caixa ficaram surpresos e pediram calma.O senhor agora com um olhar de ódio respondeu:

-Agora mesmo, você provou o quanto é estúpido.

Sérgio,num impulso de raiva, agarrou o senhor pela camisa e apontou a arma em direção a sua cabeça. A essa altura as sacolas dos dois haviam caído o conteúdo todo espalhado no chão.

- Vou chamar a polícia!! Gritou a funcionária do caixa.

Enquanto Sérgio se distraiu para ver  quem estava gritando, o senhor sacou uma arma.O que deveria acuar Sérgio,fez com que ele perdesse o controle e se entregasse por completo à sua compulsividade e atirou numa lâmpada da padaria.

O senhor desferiu um tiro no ombro se Sérgio, consequentemente,o impulso muscular após o tiro fez com que Sérgio soltasse a arma. Em uma velocidade de gotejamento rápido,o sangue do ombro de Sérgio era aparado no solo,em cima de um dos sonhos que ele tinha pegado na vitrine.O sangue era absorvido pela massa.

- Alô, quero uma ambulância na padaria da 304 norte.Aqui quem fala é o Cícero capitão aposentado da polícia militar.Rápido por favor ,temos um homem ferido. 

Sérgio não podia acreditar no que tinha ouvido , enquanto isso o seu sangue continuava a molhar o sonho.


Inspiração: 

O enredo do conto foi inspirado em uma discussão desnecessária, presenciada por mim, entre dois homens em uma lotérica.Enquanto ouvia a música Extremo Pueris da banda brasiliense Scalene, refleti sobre o manequeismo em que vivemos .Os dois sonhos representam a bipolarização política que o país tem enfrentado.O sangue de Sérgio molhando a "massa" é uma analogia  à violência e à autodepreciação que o indivíduo se submete ao defender ao extremo ideologias , despertando em si o máximo de selvageria impulsiva que se é possível. 


"Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem".  Nelson Rodrigues

Link de acesso da música Extremo Pueris:
https://youtu.be/us6BvFqoBrY



 

Comentários

  1. Excelente texto, é nítido uma qualidade excepcional na escrita, saiba que adorei as referências implícitas sobre a polaridade política! Parabéns e ansioso por novos textos.

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  2. Imaginei o momento do saque da arma.Isso tem acontecido tanto.

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  3. Imaginei o momento do saque da arma.Isso tem acontecido tanto.

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