O observador
Mãos dadas, numa noite de segunda-feira,maquiagem leve no rosto, afinal não havia conseguido fazer com tanta maestria, pois a força do meu punho ainda , provavelmente,seria ele avisando que estava chegandonão havia retornado ao habitual.Afinal, após semanas de imobilização do pós cirúrgico,após um acidente grave no punho, os tendões ainda estavam bem fracos.Ainda usava uma tipoia.Ouço uma notificação no meu celular , provavelmente,seria ele avisando que está no portão.
Estacionou o carro, em frente à minha casa; entrou e me esperava na sala, passei perfume e fui recebê-lo com um beijo , não quisemos demorar muito em casa,além do mais os ingressos já estavam comprados e sessão estaria próxima de começar e ainda gostaríamos de visitar a livraria desse shopping.Fomos para o lado de fora da casa,onde seguiriamos em seu carro.
-Espere um momento.
-O que foi?
-Preciso olhar o pneu.Tive a impressão de ter passado por cima de algo no sinal da avenida.
-O nível de ar dos pneus parece estar equilibrado.
- É verdade,mas pode ter empenado a roda, só conseguirei olhar sem as calotas.Nesse modelo, é necessário desparafusar.
- Quer que eu pegue a chave de roda?
-Não! Depois vemos isso.Desejo ir até a livraria antes da sessão iniciar.Não quero demorar mais.
Entramos no carro e fomos em direção ao nosso encontro.
No caminho, sugeri pegarmaos um atalho.Afinal, aquele era um horário de congestionamento. Em instantes , estávamos,bem mais próximos do shopping,evitamos o fluxo de engarrafamento da avenida.O atalho era nas proximidades do cemitério da cidade.
De repente, ouvimos o que pareceu ser um estrondo na lataria.Descemos rapidamente do carro.Lanterna dos celulares ligadas,esperei o pior pneu furado ou eixo fora do lugar.Em contrapartida ao grande barulho, não havia nenhum dano no carro.
Comecei a olhar em volta,uma verdadeira cena de filme que seria fundo para uma festa deHalloween: neblina forte que praticamente recobria parte do portão e inclusive o nome do cemitério parcialmente.Estava uma noite bastante fria,os termômetro marcavam 12° celcius. Nós dois estávamos agasalhados,ele menos do eu, em virtude de ser natural de uma pequena cidade do rio grande do sul,conhecia uma sensação térmica realmente fria e ,dessa forma,não tremia por qualquer frente fria brasiliense.
-Paramos,à toa.Está tudo em ordem novamente.Será que esse estrondo foi em outro carro?
-Estranho,o carro mais próximo estava bem distante . Acredito que tenha sido aqui mesmo.
-Não acredito que descemos por nada!
-Vem cá, vou fazer não ter sido à toa.
Puxei-o firmemente pelo colarinho, enquanto deslizava meus dedos pelo seu cabelo,mais especificamente ,na região occipital.Bejei-o lentamente , enquanto fazia cafunés em sua cabeça.Por alguns instantes, esqueci de que estava em um lugar tão macabro, acredito que ele também.
- Gostei da recompensa! Da próxima vez ,irei fazer o barulho eu mesmo. Riu e me envolveu em um abraço. -Eu te amo tanto.
Aproveitei que estava protegida em seu abraço e disse próximo ao ouvido dele,ao mesmo tempo em que sentia a fragrância intensa de seu perfume:
- O que eu sinto há um tempo , provavelmente,já ultrapassou os limites daquela corriqueira paixão de casais entusiasmados.Fico feliz por ter insistindo em me convencer a iniciarmos um namoro.Até hoje não me esqueço do dia em que disse que esperaria até um ano ,se fosse preciso.Espero que sejamos pacientes e constantes a fim de alcançarmos nossos planos futuros.Além do mais não paro de ouvir o bonde do Dom da Marisa Monte
Novo dia fico pensando em você ,
fico tão leve que não levo padecer...
- Adorei as palavras,amor.Saiba que és muito especial para mim.Amo você.
Enquanto nós nos abraçavamos,ouvimos um barulho novamente.Parecia ser algo vindo no motor. Não demoramos para conferir.Abrimos juntos a capota do carro.
Um gato preto, com o intestino grosso saindo da região abdominal,pula de dentro do motor do carro e corre para cemitério sobe em uma lápide e fica nos encarando.
-Tadinho!! Na certa,ele vai sangrar até a morte em pouco tempo.
Fomos ao cinema, voltamos para minha casa.Nos despedimos e meu namorado voltou para casa. Após alguns minutos, recebo uma mensagem dele, com uma foto ,em frente ao cemitério havia um gato muito semelhante aquele gato,mas agora ,ele não parecia debilitado,nem fraco,pelo contrário estava com os olhos vívidos.
Aquele olhar de algo já havia sido um animal, agora apenas uma criatura de assombro,penando como se a imortalidade fosse sua nova sina, seu alento ,sua rotina.
Inspiração:
O enredo veio a minha mente ,após ler o Gato Preto de Edgar Alan Poe e de uma sugestão do meu namorado, Gabriel Machado Saccilotto, também escritor, para tentar escrever algo do gênero.
Aproveito a oportunidade para agradecer o incentivo que recebo dele continuamente na escrita.
Ótimo texto, notório, grande inspiração em Poe. Ansioso por mais textos!
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