O Filósofo do Chiqueiro

Porfírio não era um porco qualquer. Enquanto seus irmãos se contentavam em rolar na lama e disputar os restos mais suculentos, Porfírio observava. Ele era o Filósofo do Chiqueiro. Sua mente era afiada como suas presas, dedicada a decifrar as leis que regiam seu universo aparentemente caótico. Sua epifania ocorreu ainda leitão. Num dia de fome cortante, quando os gritos da mãe não eram suficientes para trazer comida, uma figura gigantesca apareceu no portão: a Mão Provedora. Era uma força primordial, um braço que emergia do mundo dos Deuses (os altos seres que vagueavam pela fazenda). Dessa mão, caiu uma avalanche de farelo dourado, mingau quente e cascas de legumes. O evento não foi apenas uma refeição; foi uma revelação. Porfírio estabeleceu um rigoroso método de observação. A Mão Provedora tinha seus rituais. Aparecia geralmente ao amanhecer, mas a hora exata variava. Porfírio não se contentou com uma simples correlação temporal. Ele anotou mentalmente os precursores: o som da porta da cozinha rangendo, o latido do cão da quinta, o cheiro de café que antecedia a visita em alguns minutos. Ele criou uma complexa teia de causalidade. "O fornecimento não é aleatório", explicava ele aos outros porcos, mais céticos. "Ele está ligado aos ritmos dos Deuses. O farelo chega após o primeiro canto do galo em 87% dos casos, e a probabilidade aumenta para 94% se houver o som do balde de metal sendo arrastado." Sua reputação cresceu. Porfírio previa com impressionante precisão a hora aproximada da alimentação. Os porcos começaram a se organizar, evitando o desperdício de energia e antecipando o banquete. A vida sob a liderança intelectual de Porfírio tornou-se mais eficiente. Ele havia domesticado o acaso. No entanto, Porfírio era mais esperto que o peru da história original. Ele notava anomalias. Certo dia, a Mão Provedora pegou um dos porcos mais velhos e fracos, que não vinha comendo bem, e levou-o para longe. O porco não voltou. Um tremor de inquietação percorreu o chiqueiro. Os outros porcos olharam para Porfírio, seu oráculo. Ele, pensativo, analisou os dados. "Foi um evento singular", concluiu. "O sujeito em questão apresentava baixa vitalidade. Talvez os Deuses o tenham levado para um local de repouso, onde a comida é mais fácil de mastigar. Não há evidências suficientes para alterar nossa teoria principal: a Mão Provedora é, em sua essência, benéfica. Suas ações misteriosas são exceções que confirmam a regra." Conforme os dias ficavam mais curtos e o ar mais frio, uma mudança palpável ocorreu. Os Deuses pareciam mais ocupados. Visitantes chegavam. Houve um aumento significativo na quantidade e na qualidade da comida: abóboras, maçãs, restos de pão ainda macio. Para a maioria, era uma era de ouro. Para Porfírio, era um dado perturbador. Por quê essa súbita generosidade? "É um teste", especulou ele consigo mesmo. "Ou talvez uma celebração. Os Deuses reconhecem nossa prosperidade." Mas um frio na espinha, um instinto ancestral, sussurrava que havia uma variável faltando em suas equações. Na manhã de um dia excepcionalmente frio, o padrão quebrou-se completamente. A Mão Provedora apareceu muito cedo, não com baldes de comida, mas com uma peça de metal afiado que reflectiu a luz fraca do inverno. E não veio sozinha. Várias Mãos entraram no chiqueiro. Porfírio, num último lampejo de lucidade, não sentiu a mesma surpresa ingénua do peru. Ele sentiu o peso amargo de uma confirmação terrível. Os seus dados estavam certos, mas o seu quadro de interpretação estava catastróficamente errado. A benevolência não era a lei fundamental. Era uma condicional. A generosidade dos últimos dias não era um fim em si mesma; era um meio para um fim que suas observações limitadas nunca poderiam ter previsto. A Mão Provedora era, afinal, a mesma Mão que abate. A regularidade da alimentação não era um pacto de cuidado, mas a rotina de um criadouro. Porfírio compreendeu, tarde demais, que a mais perigosa das ilusões é acreditar que se pode entender a intenção de um Deus baseando-se apenas nos seus rituais. 


 Inspiração da autora :  Minha escolha por trocar o peru pelo porco é ironia da história. 
O porco é um animal reconhecidamente inteligente e perceptivo, tornando a sua falha dedutiva mais profunda e trágica. Ele não foi vítima apenas de uma indução ingénua, mas de uma complexa elaboração teórica que ignorou evidências perturbadoras em favor de uma conclusão confortável. Isso reflete como sistemas de crenças sofisticados podem ser construídos para justificar uma realidade que, vista de fora, tem uma lógica completamente diferente e mais sombria. A história alerta para os limites da observação quando isolada do contexto mais amplo do poder e das intenções.




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