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O Filósofo do Chiqueiro

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Porfírio não era um porco qualquer. Enquanto seus irmãos se contentavam em rolar na lama e disputar os restos mais suculentos, Porfírio observava. Ele era o Filósofo do Chiqueiro. Sua mente era afiada como suas presas, dedicada a decifrar as leis que regiam seu universo aparentemente caótico. Sua epifania ocorreu ainda leitão. Num dia de fome cortante, quando os gritos da mãe não eram suficientes para trazer comida, uma figura gigantesca apareceu no portão: a Mão Provedora. Era uma força primordial, um braço que emergia do mundo dos Deuses (os altos seres que vagueavam pela fazenda). Dessa mão, caiu uma avalanche de farelo dourado, mingau quente e cascas de legumes. O evento não foi apenas uma refeição; foi uma revelação. Porfírio estabeleceu um rigoroso método de observação. A Mão Provedora tinha seus rituais. Aparecia geralmente ao amanhecer, mas a hora exata variava. Porfírio não se contentou com uma simples correlação temporal. Ele anotou mentalmente os precursores: o som da por...

Fim da pescaria

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     Martinha era uma mulher de rotinas. Por quarenta anos, pegou o mesmo caminho até o rio antes das quatro da tarde em Cavalcante Goiás Centro Oeste do Brasil. Conhecia cada solavanco detalhe do terreno acidentado, cada curvasinha do caminho.A pesca era parte importante desua vida: aquela foi a atividade que nutriu seus 11 filhos com proteína conhecera, lá aprendeu a entender o nicho dos rios. Viu o rio encher e minguar.       O progresso, porém, decidiu que o rio precisava de uma represa. A energia para as cidades longínquas exigia o sacrifício daquele vale. Os engenheiros chegaram com mapas e máquinas, falando em desenvolvimento. Para Martinha, desenvolvimentos eram aqueles que ela via nos filhos: um aprendendo a ler, outro cuidando da roça, uma filha mudando para Brasília,constituindo família e se tornando empresária. Aquele alagamento anunciado era apenas um fim.O fim da aspecto imaterial da cultura de uma quilombola de quem ela fazia parte....

Minicontos

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 O Último Trem  O trem apitou, anunciou a partida. Ele correu, mas as portas se fecharam. Através do vidro, viu seu próprio rosto — envelhecido, chorando. Era o trem que o levaria de volta.  O Espelho  O espelho da avó refletia s empre um quarto vazio. Um dia, a neta olhou e viu a avó jovem, sorrindo. "Esperei tanto por você", sussurrou. O Jardim Secreto  Ela plantou sementes no quintal árido. Na manhã seguinte, flores impossíveis brotavam. Ao tocá-las, percebeu: eram feitas de papel. Alguém as deixara lá.   Leito de morte Joaquim,no leito de morte, pediu um papel para escrever. A família guardou o papel por anos. Quando finalmente o abriram, estava em branco.   O Relógio  Aquele relógio da estação,à esquerda do embarque, do metrô sempre marcava 17:30. Ninguém reparava, exceto ela. Um dia, parou. No mesmo instante, seu coração também.  O Colecionador  Jorge guardava memórias em frascos.Palavras escritas em papéis pequenos estav...

Amanhecer de um ansioso

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O Amanhecer de um ansioso O sol teimava em nascer, como se a noite não tivesse sido mais que um capricho, algo passageiro. Tiago, sentado à janela de seu quarto, observava o céu que se despedia das estrelas com a indiferença de um cortesão cansado. — "Outro dia", murmurou ele, "outra repetição.", "sem certeza de que dará certo" A luz, aos pouquinhos, cobria as ruas como uma inundação silenciosa, revelando o mundo em seus tons ordinários,às vezes bonitos. Um gato atravessou a rua, indiferente ao espetáculo que os poetas tanto celebram. Tiago sorriu. — "É verdade", pensou. "O sol nasce, os homens acordam, e tudo continua tão miseravelmente igual." Mas então, sem saber por quê, sentiu um leve aperto no peito. Talvez fosse a brisa matinal, talvez o último suspiro da noite. Ou quem sabe, quem sabe, fosse aquilo que os tolos chamam de esperança. O sol, impassível, seguiu seu curso. E Tiago, contra sua própria lógica, continuou a olhar e...

Microconto para o concurso

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Demência Aprendo o nome dos netos e talvez dos filhos todos os dias , porém sempre lembro do sofrimento e da violência da vida. Em contrapartida, me esqueço que a vida mudou, que houve divórcio, que não passei por um luto de um filho. Sou apenas um homem da lida, um filho de Deus.

Estilhaços

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Estilhaços  Tudo em volta era fumaça. No chão, o  sangue escorria na areia,estilhaços espalhados. Uma criança baixa; magra pelo chão rastejava ,ao seu lado corpo da mãe caído. Com pouca força; muita dor e dificuldade em enxergar algo em frente a criança se pôs de cócoras. Mesmo assim ,era difícil, pois os dedos de seus pés estavam fragmentados. Sobre seu corpo vários estilhaços. Após um tempo se locomovendo,por hora engatinhando, por hora de cócoras,conseguiu chamar Benedita. - O que aconteceu? Que tunda foi essa que ocê levou ? - Não foi tunda ,foi o porrete que mãe deu na pólvora. O explosivo era o restante das sobras de material explosivo que o governo usou para a construção de uma pista às margens da comunidade do Vão de Almas. Na esperança de conseguir mais uma ferramenta de pesca , Cassiana havia começado a partir o material explosivo encontrado,assim , aconteceu o acidente. Benedita foi até o local com Martinha,chegou lá, a mãe de Martinha - Cassiana, estava com fragmen...

Às margens do eterno rio

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Às margens do eterno rio Dá-me um coração que não segue   passos do escarnecedores  Nem na vereda obscura eu me detenha   Antes, meu coração guarde no íntimo   A lei do céu, jardim do seu querer.   Como árvore plantada à fonte viva,   Seus ramos estendem frutos ao sol;   Folhas que não secam, raízes profundas —   Tempo nem tormenta abalam sua voz.   Afaste-me de cair pelas vozes ímpias  Que eu não seja palha ao vento errante,   Sem rumo, sem lugar, sem proteção;   Porque esses no juízo não resistem à tempestade, são d esfeitos  no sopro da própria ilusão.  O caminho justo é conhecido por Ti, Eterno    E o mal, como sombra, se esvai no além.   Quem dança com a luz do rio eterno   Encontra, em suas águas, o amanhã.   Margem do Rio Sena França 1887 Pintura de Vincent Van Gogh